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06.08.2013

Apesar dos obstáculos, número de construções verdes cresce no Brasil

Eldorado Business Tower foi o primeiro edifício a receber certificado LEED no país em 2006. As fundações são escavadas por uma perfuratriz no lugar do barulhento bate-estaca. Já a estrutura é toda feita de concreto produzido na obra. Paredes e janelas iluminam e climatizam o apartamento naturalmente, economizando a energia elétrica produzida por placas solares, cujo excedente volta à rede. Mas hoje fez chuva em vez de sol? Tudo bem, a água corre para cisternas e é reaproveitada.

Viver ou trabalhar em um edifício verde, aos poucos deixa de ser tendência para virar regra no Brasil. Não à toa, o país é o quarto do mundo em número de edifícios verdes, perdendo apenas para Estados Unidos, China e Emirados Árabes Unidos, no ranking da organização Green Building Council (GBC), responsável pelo Certificado LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), um dos mais respeitados do mundo.

De acordo com a GBC Brasil, até o momento, o Brasil possui 109 edifícios com esse certificado e outros 720 projetos estão na fila de espera da certificação. Mas o diretor técnico da ONG, Marcos Casado, crava uma meta ainda mais ambiciosa: “nosso objetivo é chegar ao final de 2013 com 130 empreendimentos certificados e 900 registrados em processo de certificação”, afirma. A Fundação Vanzolini, responsável pelo Certificado AQUA (Alta Qualidade Ambiental), baseado no sistema francês HQE (Haute Qualité Environmentale), afirma que 133 edificações já receberam o AQUA no país, entre eles 46 residenciais, 14 comerciais, 4 entre indústrias e empresas de logística, 15 escolas, 25 escritórios, 8 entre hotéis e shopping centers, e a meta é que este ano outras 50 edificações recebam o selo.

Todo esse otimismo se justifica. Com o boom do mercado imobiliário e o conceito de desenvolvimento sustentável em alta, nosso país tem tudo para se tornar um líder global no setor de green building. Antes, porém, é preciso superar o problema do custo, que é fruto de outros gargalos como a pouca informação técnica disponível e da falta de sintonia entre a iniciativa privada, Governo e as concessionárias públicas. Não são apenas os 8% Em qualquer discussão sobre edificações verdes, o custo da obra, estimado entre 1% e 8% em média, é o tópico mais recorrente.

Hamilton Leite, diretor de sustentabilidade do SECOVI-SP, entrevistou 813 empresários e profissionais da construção civil em São Paulo e outros estados do país para sua dissertação de mestrado que revelou ser esse o fator que mais gera preocupação para 82% dos empreiteiros e 74% dos profissionais.

Afinal de contas, de onde vem esse “custo”? Vem da escolha do terreno, que deve estar próximo das redes de transporte público e serviços para que se evite ao máximo o uso do carro; do preço da matéria-prima, que deve ter origem certificada e conter o mínimo de produtos químicos; e dos sistemas de consumo racional de energia elétrica, água e destinação do lixo, por exemplo. Mas há também a despesa com a certificação ambiental. Embora ela sozinha represente 0,1% do custo da obra, essa é a segunda fonte de preocupação para o setor, pois, segundo Hamilton Leite, as empresas contratam consultorias especializadas, o que eleva ainda mais o custo.

“Existe uma série de itens para os quais as empresas contratam essas consultorias para que estes sejam preenchidos”. Essa “série de itens” engloba a escolha do local do empreendimento e a relação dele com o entorno, o retorno financeiro, a gestão da obra, e o desempenho dos materiais utilizados.

Muita demanda para pouca informação disponível. “Falta estatística e pesquisa sobre os materiais. Você não tem elementos e nem base de dados, para fazer dados comparativos” afirma o engenheiro e consultor Luiz Olímpio Costi. Para Costi, outro empecilho para o setor é a falta de uma melhor interface entre construtoras e concessionárias públicas, como as de energia elétrica, por exemplo. “Quando a gente tem condição de gerar energia por meio solar, as concessionárias não tem forma de receber essa energia. Então é necessários criar processos no governo para que a gente consiga ter condição de devolver energia para o mercado”.

Criar cultura para o futuro Fazer um edifício verde, como se viu até aqui, custa trabalho e dinheiro. Mas é inegável que o retorno é certo, não só ambiental como economicamente. Falta, portanto, desenvolver uma “cultura de sustentabilidade” na área de construção em que as empresas e a sociedade como um todo se conscientizem desses benefícios a médio e longo prazos e vejam nisso um forte chamariz para os negócios.

O especialista Marcos Casado confirma isso com números: “o retorno é muito rápido, já que há uma grande redução dos custos operacionais. O consumo de energia é 30% menor, redução de até 50% no consumo de água e de até 80% nos resíduos. Há também uma valorização de 10% a 20% no preço de revenda e a redução média de 9% no custo de operação do empreendimento”, ressalta. Parte do processo de criação dessa consciência ambiental passa pela troca de conhecimento.

O SECOVI-SP já possui publicações, feitas em parceria com o Conselho Brasileiro da Construção Sustentável (CBCS) que reúnem informações sobre condutas práticas e desenvolvimento urbano sustentável para todos os agentes do setor da construção civil para auxiliar futuros projetos. A parceria entre iniciativa privada e os centros de pesquisa também é um incremento fundamental. “Outra iniciativa que envolve a divulgação de práticas sustentáveis é a de incentivar pesquisas com foco no mercado imobiliário. Vamos premiar as melhores pesquisas feitas na Academia e apresenta-las ao mercado, que poderão utilizá-las no futuro ou até mesmo desenvolver novas parcerias”, ressalta Hamilton Leite.

O Governo também precisa fazer sua parte. “É necessário o estabelecimento e a prática de políticas públicas, que integrem uma visão global dos impactos sócio-econômico-ambientais da implantação ou requalificação do ambiente construído e dos territórios”, opina Bruno Casagrande, responsável pelo desenvolvimento de negócios da Certificação do Processo AQUA. Nesse âmbito, a Caixa Econômica Federal através do Programa Minha Casa Minha Vida para famílias com renda de até R$ 1600,00 o aquecimento solar é obrigatório para todas as casas térreas.

Na cidade de Juazeiro (BA), em um empreendimento financiado pelo banco, a energia produzida por painéis solares e aero geradores iluminará partes do prédio e o excedente será vendido com renda revertida para o condomínio. Além disso, o banco possui o Selo Casa Azul, um tipo de classificação socioambiental dos projetos habitacionais financiados pela Caixa que reconhece os empreendimentos com soluções eficientes na construção, uso, ocupação e manutenção dos edifícios, incentivando o uso racional de recursos naturais e a melhoria da qualidade da habitação e de seu entorno.

Mas mesmo no âmbito municipal há muito que pode ser feito. Hamilton Leite sugere a ampliação da área construída para edificações verdes como forma de incentivar novos projetos sem a utilização de verba pública: “se o seu empreendimento for sustentável, você pode aumentar de 5 a 10% de área construída. Esse exemplo não onera o poder público e gera maior interesse do empreendedor”, completa. “Cada vez mais será difícil a humanidade traçar novos caminhos sem pensar em sustentabilidade”, disse Bruno Casagrande.

O caminho – ou seria melhor, edifício – a ser construído pelo mercado das construções verdes no Brasil tem muito a crescer, mas, assim como para todos os seres vivos, é questão de tempo e persistência.

Fonte: Secovi – SP

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